O asteroide (29) Amphitrite em 2026

 Antônio Rosa Campos

O asteroide (29) Amphitrite, um dos corpos mais luminosos e maciços do cinturão principal, atingirá a sua oposição no dia 29 de maio de 2026, às 00:00 TU. Localizado na constelação de Escorpião (Sco), o objeto apresentará as coordenadas equatoriais (J2000.0) de Ascensão Reta 16h 15m 30.41s e Declinação -30° 31' 38.2". Durante esta efeméride, alcançará a notável magnitude visual de 9.59 e uma elongação solar de 170.8°. A janela observacional ocorrerá simultaneamente a um severo desafio de contraste de fundo de céu: a Lua apresentará uma fase decimal de +0.948 (próxima à fase Cheia), com magnitude de -12.0 e elongação de 153.6°. Esta configuração geométrica impõe um ofuscamento atmosférico significativo, exigindo um planejamento rigoroso dos tempos de exposição fotográfica para evitar a saturação conjunta pela luz lunar e pelo próprio brilho intenso do asteroide.

Aspectos Físicos, Históricos e Biográficos

A descoberta do asteroide (29) Amphitrite ocorreu em 1 de março de 1854 — curiosamente, na mesma data da descoberta de (28) Bellona —, realizada pelo astrônomo inglês Albert Marth a partir do South Villa Observatory, no Regent's Park, em Londres. Segundo Hockey (2007), este foi o único asteroide descoberto por Marth em sua carreira. A nomenclatura do objeto deriva da mitologia grega, designando a deusa dos mares e esposa de Poseidon, conforme referenciado no dicionário enciclopédico de Mourão (1987).

Fisicamente, Amphitrite destaca-se pelas suas dimensões (diâmetro estimado em ~189.6 km) e por um período de rotação consideravelmente rápido de 5.3921 horas. Classificado como um asteroide do tipo espectral S, possui composição rochosa (silicatos como olivina e piroxênio, além de metais ferrosos) e um elevado albedo geométrico de 0.216, características que justificam o seu excepcional brilho intrínseco (Magnitude Absoluta H = 5.9).

Observações e Registros em Manaus-AM

O acervo astrométrico da Estação X33 (Observatório Astronômico Rei do Universo - OARU) contém um registro de (29) Amphitrite realizado pelo observador Geovandro Nobre. Em 17 de fevereiro de 2025 (fração 17.05489 TU), o objeto foi capturado (Tracklet GHN0770) com uma elongação de 151°, próximo à sua oposição daquele ano. Utilizando o refletor de 0.20-m (200mm) f/5.0, a medição revelou um rápido movimento retrógrado de 0.259 segundos de arco por minuto ("/min) no ângulo de posição (PA) de 286°.


Figura 1 - (29) Amphitrite em 2025 - Crédito: Geovandro Nobre - OARU, Manaus-AM, Brasil

A análise técnica desta captura revelou um artefato instrumental valioso: devido ao extremo brilho do asteroide (magnitude 9.6 V na época) e ao tempo de exposição padronizado de 30 segundos por frame (num empilhamento de 5 frames), o sensor CCD sofreu saturação local e blooming (extravasamento de elétrons nos pixels adjacentes). A Função de Espalhamento Pontual (PSF) do asteroide apresentou-se deformada, excedendo o limite do poço (full-well capacity) da câmera e evidenciando a necessidade de ajustes operacionais para alvos desta magnitude.

Estratégia de Observação

Com a magnitude visual prevista de 9.59 para 29 de maio de 2026, a estratégia observacional deve ser ajustada em relação aos alvos típicos do cinturão principal. Para telescópios de Média a Maior Abertura (150–250 mm), o protocolo de 30 segundos de exposição adotado resultará novamente em saturação do sensor, problema que será agravado pela alta luminosidade do fundo de céu provocada pela Lua (fase +0.948). Para garantir a precisão astrométrica do centroide e evitar o blooming, recomenda-se reduzir drasticamente o tempo de integração para 5 a 8 segundos por frame, ou, alternativamente, aplicar filtros de densidade neutra (ND) ou binning 2x2. O movimento acelerado de Amphitrite próximo à oposição garante que o seu deslocamento será detectável mesmo com tempos de integração reduzidos.

Perspectivas Futuras

O asteroide (29) Amphitrite orbita o Sol com um semieixo maior de 2.554 au e uma inclinação de 6.1°, completando uma revolução sideral a cada 4.083 anos terrestres. Através da mecânica orbital, calcula-se o seu período sinódico em 483 dias e 18 horas (aproximadamente 1.324 anos terrestres). Projetando este ciclo a partir do evento de 29 de maio de 2026, a próxima janela favorável de oposição projetar-se-á para a última semana de setembro de 2027. Recomenda-se a continuidade dos rastreamentos com parâmetros de exposição calibrados, além do monitoramento contínuo para refinar o conhecimento sobre possíveis assimetrias em sua curva de luz ditadas por sua rápida rotação.

Notas:

1 — Conforme definido pela Resolução da Assembleia Geral da UAI (B2, 2015), adota-se a unidade astronômica (au) para representar a distância média Terra-Sol.

2 — As coordenadas equatoriais (J2000.0) são apresentadas no formato HH:MM:SS e GG° MM' SS".

3 — A fase lunar assume a escala decimal com os valores: 0.000 = Nova; +0.500 = Quarto Crescente; 1.000 = Cheia e -0.500 = Quarto Minguante.

4 — Instrumentação recomendada: Média a Maior abertura (150–250 mm), com ajuste mandatório do tempo de exposição.


Referências:

BELL, J. F. Surface characteristics of 29 Amphitrite. Meteoritics, v. 20, p. 606-607, 1985. Disponível em: https://adsabs.harvard.edu/full/1985Metic..20..606B. Acesso em: 12 mar. 2026.

CAMPOS, Antônio Rosa. Almanaque Astronômico Brasileiro 2026. Belo Horizonte: CEAMIG, 2025. Disponível em: <https://is.gd/Alma2026>. Acesso em:  02 Dez. 2025.

HOCKEY, Thomas et al. (Eds.). The Biographical Encyclopedia of Astronomers. New York: Springer, 2007.

MACHADO, Rubens E. G. Astronomia de Posição. Curitiba: UTFPR, 2023.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. 

NOBRE, G. Registro Astrométrico de (29) Amphitrite. Observatório Astronômico Rei do Universo (OARU). 16 fev. 2025.

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