O asteroide (93) Minerva em 2026

 Antônio Rosa Campos

O asteroide (93) Minerva, um corpo celeste escuro localizado na região média do cinturão principal, atingirá a sua oposição no dia 21 de abril de 2026, às 00:00 TU. Posicionado na constelação de Virgem (Vir), o objeto apresentará as coordenadas equatoriais (J2000.0) de Ascensão Reta 13h 44m 03.97s e Declinação -17° 33' 02.6". Durante esta efeméride, alcançará uma magnitude visual de 11.19 e uma elongação solar de 173.6°. As condições de observação serão bastante favoráveis, pois a Lua apresentará uma fase decimal de +0.172 (caminhando para o Quarto Crescente), com magnitude de -8.1 e elongação de 48.9°. Essa configuração geométrica propicia um fundo de céu escuro ideal para a captação fotométrica e astrométrica de objetos que exigem maior poder de captação de luz.

Sistema Triplo e Composição Física

Fisicamente, (93) Minerva é classificado como um asteroide do tipo C, caracterizado por um alto teor de carbono. Asteroide deste tipo possuem espectros muito semelhantes aos condritos carbonáceos, apresentando uma composição química que reflete aproximadamente a mesma do Sol e da nebulosa solar primitiva, com a exceção da ausência de hidrogênio, hélio e outros voláteis. Devido a esta composição, o objeto possui um albedo extremamente baixo (escuro), o que justifica a necessidade de telescópios de boa abertura para a sua observação adequada, conforme apontado por Simonsen (2009).

Além de sua composição, (93) Minerva destaca-se por ser um asteroide triplo. A descoberta de seus companheiros ocorreu em 16 de agosto de 2009, quando os astrônomos Franck Marchis, Pascal Descamps, Jerome Berthier e Frédéric Vachier, utilizando o sistema de óptica adaptativa do W. M. Keck Telescope (Mauna Kea, Havaí), identificaram dois objetos provisoriamente designados como S/2009 (93) 1 e S/2009 (93) 2. Um estudo subsequente publicado na revista Icarus em maio de 2013 revelou que estes satélites possuem diâmetros estimados em 2 km e 5 km, orbitando o primário a distâncias de 375 km e 625 km, respectivamente. Em 17 de dezembro de 2013, o Minor Planet Center (MPC) oficializou a nomenclatura dos satélites: Aegis para o S/2009 (93) 1 e Gorgoneion para o S/2009 (93) 2 (MARCHIS, 2013; IAU, 2013).

Aspectos Históricos e Biográficos

A descoberta do primário (93) Minerva ocorreu em 24 de agosto de 1867, pelo astrônomo canadense-americano James Craig Watson a partir do Observatório de Ann Arbor. Conforme documentado por Hockey (2007) e complementado pelas listas oficiais do MPC (IAU, 2014), Watson notabilizou-se por sua habilidade matemática na computação de órbitas. O nome, em harmonia com os satélites descobertos posteriormente, remete à deusa romana da sabedoria, das artes e da estratégia (MOURÃO, 1987).

Observações e Registros em Manaus-AM

Dados astrométricos obtidos pelo observador Geovandro Nobre na Estação X33 (Observatório Astronômico Rei do Universo - OARU) em 15 de janeiro de 2025 demonstram a viabilidade técnica do rastreamento deste corpo sob condições reais. Utilizando um telescópio refletor de 0.20-m (200mm) f/5.0, o objeto foi registrado com uma magnitude visual de 12.6 V na constelação de Câncer (coordenadas da época: AR 08h 30m 20.93s / Dec +30° 28' 00.7"). A análise dinâmica revelou um movimento aparente relativamente lento de 0.126 segundos de arco por minuto ("/min) com um ângulo de posição (PA) de 289.1° (direção oeste). 

Figura 1 - (93) Minerva em 2025 - Crédito: Geovandro Nobre - OARU, Manaus-AM, Brasil

A técnica de captura adotada consistiu em um empilhamento rigoroso de 5 frames de 30 segundos cada (exposição total de 2,5 minutos), resultando em uma escala de pixel de 1.91 "/px. Esta configuração provou-se ideal para "congelar" o asteroide pontualmente sem induzir rastros nas estrelas de referência do campo (FOV de 6.1 x 6.1 arcmin).

Estratégia de Observação

Considerando a natureza de baixo albedo (tipo C) e a magnitude visual de 11.19 prevista para a oposição de abril de 2026, a estratégia fundamental exige telescópios de média abertura (120–180 mm). Aproveitando a baixa elongação e luminosidade lunar (+0.172), recomenda-se apontar o instrumento para as coordenadas fornecidas em Virgem. Com base no sucesso da Estação X33 (onde o asteroide apresentou velocidade de apenas 0.126 "/min), exposições de 30 segundos com empilhamento (stacking) são altamente recomendadas. Este limite de tempo é suficiente para que o sinal supere o ruído sem que o movimento do asteroide crie borrões. Ressalta-se que a resolução visual dos satélites (a 375 e 625 km do primário) exige óptica adaptativa de classe profissional, devendo o observador amador concentrar-se na fotometria e astrometria do sistema como uma fonte luminosa única.

Perspectivas Futuras

Orbitando na região "Média" do cinturão com um semieixo maior de 2.755 au, (93) Minerva possui um período sinódico de 467 dias. A próxima oposição após abril de 2026 projetar-se-á para o início de agosto de 2027. Recomenda-se um monitoramento fotométrico contínuo da sua curva de luz durante a atual janela observacional. Pequenas variações fotométricas podem fornecer dados cruciais sobre a rotação do corpo principal e eventuais indícios de ocultações mútuas entre ele e seus satélites Aegis e Gorgoneion.

Notas:

1 — Conforme definido pela Resolução da Assembleia Geral da UAI (B2, 2015), adota-se a unidade astronômica (au) para representar a distância média Terra-Sol.

2 — As coordenadas equatoriais (J2000.0) são apresentadas no formato HH:MM:SS e GG° MM' SS".

3 — A fase lunar assume a escala decimal: 0.000 = Nova; +0.500 = Quarto Crescente; 1.000 = Cheia; -0.500 = Quarto Minguante.

4 — Instrumentação recomendada (Limite de Portabilidade): Média abertura (120–180 mm), estritamente necessária devido ao baixo albedo do objeto.

Referências:

CAMPOS, Antônio Rosa. Almanaque Astronômico Brasileiro 2026. Belo Horizonte: CEAMIG, 2025. Disponível em: <https://is.gd/Alma2026>. Acesso em: 11 mar. 2026.

NOBRE, G. Registro Astrométrico de (93) Minerva. Observatório Astronômico Rei do Universo (OARU). 15 jan. 2025.

HOCKEY, Thomas et al. (Eds.). The Biographical Encyclopedia of Astronomers. New York: Springer, 2007.

IAU - INTERNATIONAL ASTRONOMICAL UNION. Minor Planet Circular 85284. Minor Planet Center, Smithsonian Astrophysical Observatory, Cambridge, MA, 17 dez. 2013. Disponível em: <http://www.minorplanetcenter.net/iau/ECS/MPCArchive/2013/MPC_20131217.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2017.

IAU - INTERNATIONAL ASTRONOMICAL UNION. Discovery Circumstances: Numbered Minor Planets (1)-(5000). Minor Planet Center, 2014. Disponível em: <http://www.minorplanetcenter.net/iau/lists/NumberedMPs000001.html>. Acesso em: 4 mai. 2014.

MACHADO, Rubens E. G. Astronomia de Posição. Curitiba: UTFPR, 2023.

MARCHIS, Franck. Asteroid Minerva finds its magical weapons in the sky. Cosmic Diary (Franck Marchis Blog), 20 dez. 2013. Disponível em: <http://cosmicdiary.org/fmarchis/2013/12/20/asteroid-minerva-finds-its-magical-weapons-in-the-sky/>. Acesso em: 20 jan. 2017.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

OAM - OBSERVATÓRIO ASTRONÔMICO DO CAPRICÓRNIO / IAG-USP. Definições São Paulo: IAG-USP, <s.d.>. Disponível em: <http://www.observatorio.iag.usp.br/index.php/mencurio/curiodefin.html>. Acesso em: 18 ago. 2015.

SIMONSEN, Mike. 93 Minerva is a triple asteroid. Mike Simonsen's stellar astronomy blog, ago. 2009. Disponível em: <http://simostronomy.blogspot.com.br/2009/08/93-minerva-is-triple-asteroid.html>. Acesso em: 10 jul. 2013.

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