Fig. 1 – Aspecto visual da Lua durante a fase de totalidade umbral - Fonte: Ilustração gerada pelo Autor - gerado via IA..Em 03 de março de 2026, ocorrerá o primeiro eclipse lunar do ano, um evento total cuja região de visibilidade abrange vastas áreas do globo. Observadores situados no Leste da Europa, Ásia, Austrália, Américas (Norte e Sul), bem como nos Oceanos Pacífico, Atlântico, Índico, e nas regiões do Ártico e Antártida poderão acompanhar ao menos uma parte do fenômeno (figura 1).
Fig. 2 – Regiões de visibilidade global do eclipse lunar total em 03/03/2026. Fonte: Ilustração gerada pelo Autor. gerado via IA.
Dentre as grandes metrópoles mundialmente conhecidas onde a fase total será visível, destacam-se: Tóquio, Sydney, Pequim, Singapura, Nova York, Cidade do México, Lima e Los Angeles. No Brasil, entretanto, o evento apresenta características de visibilidade marginal, ocorrendo em coincidência com o ocaso da Lua no horizonte oeste.
Durante o fenômeno, a Lua transitará completamente pela sombra da Terra, proporcionando uma fase de totalidade com duração estimada em 58 minutos. O instante máximo do eclipse (O momento em que a Lua está mais profundamente imersa na umbra "sombra escura" da Terra) está previsto para as 11:33:40 (TU), momento em que a magnitude umbral atingirá 1.1507 (Figura. 4). As circunstâncias detalhadas dos contatos principais, fundamentais para a cronometragem e estudo do evento, estão dispostas na Tabela 1 (ESPENAK & MEEUS, 2026).
Tabela 1 – Circunstâncias do Eclipse Lunar
| Fase Umbra | Umbra (U) Início | Umbra (U) Total |
| Imersão | U1 - 09:49:47 | U2 - 11:04:02 |
| Emersão | U4 - 13:17:28 | U3 - 12:02:54 |
| Fonte: Adaptado de Espenak & Meeus (NASA/GSFC). |
O Ciclo de Saros 133
No contexto das periodicidades astronômicas, este evento integra o Ciclo de Saros 133, sendo o 27.º integrante de uma longa família composta por 71 eclipses. Esta série teve a sua gênese em 13 de maio de 1557, com um discreto eclipse penumbral tangenciando a borda sul da sombra terrestre. Sua trajetória secular estender-se-á por mais de um milênio, encerrando-se definitivamente em 29 de junho de 2819, também com um eclipse penumbral, mas desta vez tocando o limite norte da penumbra. Geometricamente, esta evolução caracteriza o deslocamento gradual da Lua através da sombra da Terra no sentido Sul para Norte (Nodo Descendente). Atualmente, vivenciamos a fase de "maturidade" desta série, onde os alinhamentos produzem eclipses totais profundos e centrais, reforçando a notável precisão da mecânica do sistema Terra-Lua-Sol.
Aspectos Visuais e a Escala de Danjon
Para os observadores situados nas regiões onde a totalidade será visível, a aparência da Lua eclipsada pode variar significativamente devido às condições atmosféricas terrestres. Para classificar essa luminosidade, utiliza-se a Escala de Danjon (L), apresentada na Tabela 2. Estimar o valor de "L" no momento máximo é uma atividade valiosa para o monitoramento da transparência da atmosfera da Terra.
Tabela 2 – Escala de Danjon
| Valor (L) / Value (L) | Descrição em Português | English Description |
| 0 | Eclipse muito escuro. Lua quase invisível na totalidade. | Very dark eclipse. Moon almost invisible during totality. |
| 1 | Eclipse escuro, cinza ou acastanhado. Detalhes difíceis de distinguir. | Dark eclipse, gray or brownish in color. Details distinguishable only with difficulty. |
| 2 | Eclipse vermelho-escuro ou cor de ferrugem. Centro da sombra muito escuro, borda da umbra relativamente brilhante. | Deep red or rust-colored eclipse. Central shadow very dark, while the outer edge of the umbra is relatively bright. |
| 3 | Eclipse vermelho-tijolo. Borda da umbra brilhante ou amarela. | Brick-red eclipse. Umbral rim bright or yellow. |
| 4 | Eclipse muito brilhante, vermelho-cobre ou alaranjado. Borda da umbra muito brilhante, por vezes com tonalidade azulada. | Very bright copper-red or orange eclipse. Umbral rim very bright, sometimes with a bluish tinge. |
| Fonte/Source: Adaptado de REA (Rede de Astronomia Observacional) e definições padrão. |
Metodologia e Importância Científica
A cronometragem dos contatos de crateras não é apenas um registro de horários, mas um método científico para mensurar a dilatação da sombra terrestre. Devido à atmosfera do nosso planeta, a umbra projetada na Lua é cerca de 2% maior do que a geometria simples prevê.
Segundo VITAL (2003), o observador deve registrar o instante em que o gradiente máximo de escuridão da borda da umbra cruza o centro da cratera (ou formação). Estes dados auxiliam no refinamento dos cálculos de achatamento umbral e na análise de constituintes atmosféricos.
Tabela 3 – Previsão de Imersão e Emersão de Crateras (Tempos em TU)
| Relevo | Coord. Selenográficas | Ø (km) | Imersão (TU) | Emersão (TU) |
| Grimaldi | 5,2° S / 68,9° W | 235,0 | 09:53:59 | 12:14:50 |
| Riccioli | 3,3° S / 74,3° W | 139,0 | 09:52:25 | 12:14:53 |
| Billy | 13,8° S / 50,2° W | 45,5 | 10:00:55 | 12:16:08 |
| Crüger | 16,7° S / 66,9° W | 45,9 | 09:58:26 | 12:11:32 |
| Gassendi | 17,5° S / 39,9° W | 111,3 | 10:06:02 | 12:18:06 |
| Campanus | 29,1° S / 35,2° W | 48,9 | 10:16:03 | 12:18:40 |
| Schickard | 44,3° S / 55,0° W | 207,7 | 10:17:34 | 12:06:41 |
| Tycho | 43,4° S / 11,1° W | 85,0 | 10:31:14 | 12:18:22 |
| Bullialdus | 33,3° S / 20,6° W | 61,4 | 10:15:04 | 12:23:29 |
| Pitatus | 29,8° S / 13,5° W | 100,6 | 10:23:30 | 12:23:06 |
| Kepler | 8,1° N / 38,0° W | 29,4 | 09:59:31 | 12:27:44 |
| Aristarchus | 23,7° N / 47,4° W | 39,9 | 09:55:48 | 12:30:19 |
| Copernicus | 9,6° N / 20,0° W | 96,0 | 10:07:24 | 12:35:43 |
| Pytheas | 20,5° N / 20,6° W | 20,0 | 10:06:14 | 12:39:12 |
| Timocharis | 26,7° N / 13,1° W | 34,1 | 10:09:30 | 12:44:28 |
| Archimedes | 29,7° N / 3,9° W | 81,0 | 10:13:34 | 12:49:14 |
| Aristillus | 33,8° N / 1,2° E | 54,3 | 10:15:57 | 12:52:19 |
| Pico | 45,8° N / 8,8° W | 24,4 | 10:11:46 | 12:50:51 |
| Plato | 51,6° N / 9,38° W | 100,6 | 10:12:03 | 12:52:01 |
| Dionysius | 2,77° N / 17,2° E | 17,2 | 10:29:26 | 12:51:05 |
| Manilius | 38,3° N / 9,0° E | 38,3 | 10:22:17 | 12:51:03 |
| Menelaus | 16,2° N / 15,9° E | 27,1 | 10:25:36 | 12:54:48 |
| Plinius | 15,3° N / 23,6° E | 41,3 | 10:29:40 | 12:58:10 |
| Eudoxus | 44,2° N / 16,2° E | 70,1 | 10:21:31 | 12:59:57 |
| Aristoteles | 50,2° N / 17,3° E | 87,5 | 10:21:06 | 13:00:34 |
| Censorinus | 0,4° S / 32,7° E | 4,1 | 10:38:28 | 12:56:42 |
| Goclenius | 10,0° S / 45,0° E | 73,0 | 10:46:55 | 12:56:53 |
| Langrenus | 8,8° S / 61,0° W | 131,9 | 10:52:46 | 13:02:36 |
| Taruntius | 5,5° N / 46,5° E | 57,3 | 10:43:14 | 13:04:38 |
| Posidonius | 31,8° N / 29,9° E | 95,0 | 10:29:13 | 13:03:57 |
| Proclus | 16,1° N / 46,8° E | 26,9 | 10:40:40 | 13:07:21 |
| Picard | 14,5° N / 54,7° E | 22,3 | 10:43:55 | 13:09:59 |
| Endymion | 53,6° N / 56,4° E | 122,1 | 10:31:26 | 13:10:22 |
| Mare Crisium | 17,0° N / 59,1° E | 418,0 | 10:44:54 | 13:11:20 |
| Fonte: Dados extraídos do Almanaque Astronômico Brasileiro (CAMPOS, 2026, p. 45-46). |
Conclusão
Para os observadores situados no Brasil, a coincidência dos horários do fenômeno com o amanhecer e o consequente ocaso lunar impõe restrições severas à visualização direta. A fase penumbral (P1) terá início às 05:44 (HLB), momento em que a Lua estará com altitude inferior a 10° na maior parte do território nacional.
Contudo, a impossibilidade de acompanhar a totalidade visualmente não diminui a relevância astronômica do evento. A análise das circunstâncias deste eclipse — desde a dilatação da sombra terrestre (cerca de 2%) evidenciada pela metodologia de cronometragem de crateras, até a evolução secular da série Saros 133 — reforça o caráter pedagógico e científico da astronomia amadora. O acompanhamento rigoroso das efemérides e a compreensão destas dinâmicas mantêm viva a prática da astronomia de posição, preparando-nos tecnicamente para os futuros alinhamentos da mecânica celeste.
Referências:
CAMPOS, Antônio Rosa (Org.). Almanaque Astronômico Brasileiro 2026. Belo Horizonte: Ed. CEAMIG, 2025. Disponível em:
ESPENAK, Fred; MEEUS, Jean. Five Millennium Catalog of Lunar Eclipses: -1999 to +3000. NASA/GSFC, 2009. Disponível em:
MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. 914 p.
TIME AND DATE. Total Lunar Eclipse on March 3, 2026. Disponível em:
VITAL, Hélio de Carvalho. Eclipse Lunar Total de 08 de novembro de 2003: instruções para observação. Rede de Astronomia Observacional (REA), 2003. Disponível em:
VITAL, Hélio de Carvalho. Projetos de observação: eclipse lunar total de 28 de outubro de 2004. Rede de Astronomia Observacional (REA), 2004. Disponível em:


