O Eclipse Total da Lua em 03/03/2026

 Antônio Rosa Campos

Fig. 1 – Aspecto visual da Lua durante a fase de totalidade umbral - Fonte: Ilustração gerada pelo Autor - gerado via IA..

Em 03 de março de 2026, ocorrerá o primeiro eclipse lunar do ano, um evento total cuja região de visibilidade abrange vastas áreas do globo. Observadores situados no Leste da Europa, Ásia, Austrália, Américas (Norte e Sul), bem como nos Oceanos Pacífico, Atlântico, Índico, e nas regiões do Ártico e Antártida poderão acompanhar ao menos uma parte do fenômeno (figura 1).


Fig. 2 – Regiões de visibilidade global do eclipse lunar total em 03/03/2026. 
Fonte: Ilustração gerada pelo Autor. gerado via IA.

Dentre as grandes metrópoles mundialmente conhecidas onde a fase total será visível, destacam-se: Tóquio, Sydney, Pequim, Singapura, Nova York, Cidade do México, Lima e Los Angeles. No Brasil, entretanto, o evento apresenta características de visibilidade marginal, ocorrendo em coincidência com o ocaso da Lua no horizonte oeste.


Fig. 3 – Ilustração das condições de visibilidade marginal no Brasil: ocaso da Lua coincidente com o crepúsculo matutino - Fonte: Ilustração gerada pelo Autor. gerado via IA.

Durante o fenômeno, a Lua transitará completamente pela sombra da Terra, proporcionando uma fase de totalidade com duração estimada em 58 minutos. O instante máximo do eclipse (O momento em que a Lua está mais profundamente imersa na umbra "sombra escura" da Terra) está previsto para as 11:33:40 (TU), momento em que a magnitude umbral atingirá 1.1507 (Figura. 4).  As circunstâncias detalhadas dos contatos principais, fundamentais para a cronometragem e estudo do evento, estão dispostas na Tabela 1 (ESPENAK & MEEUS, 2026).

Tabela 1 – Circunstâncias do Eclipse Lunar

Fase UmbraUmbra (U) InícioUmbra (U) Total
ImersãoU1 - 09:49:47U2 - 11:04:02
EmersãoU4 - 13:17:28U3 - 12:02:54 
Fonte: Adaptado de Espenak & Meeus (NASA/GSFC).

O Ciclo de Saros 133

No contexto das periodicidades astronômicas, este evento integra o Ciclo de Saros 133, sendo o 27.º integrante de uma longa família composta por 71 eclipses. Esta série teve a sua gênese em 13 de maio de 1557, com um discreto eclipse penumbral tangenciando a borda sul da sombra terrestre. Sua trajetória secular estender-se-á por mais de um milênio, encerrando-se definitivamente em 29 de junho de 2819, também com um eclipse penumbral, mas desta vez tocando o limite norte da penumbra. Geometricamente, esta evolução caracteriza o deslocamento gradual da Lua através da sombra da Terra no sentido Sul para Norte (Nodo Descendente). Atualmente, vivenciamos a fase de "maturidade" desta série, onde os alinhamentos produzem eclipses totais profundos e centrais, reforçando a notável precisão da mecânica do sistema Terra-Lua-Sol.

Aspectos Visuais e a Escala de Danjon

Para os observadores situados nas regiões onde a totalidade será visível, a aparência da Lua eclipsada pode variar significativamente devido às condições atmosféricas terrestres. Para classificar essa luminosidade, utiliza-se a Escala de Danjon (L), apresentada na Tabela 2. Estimar o valor de "L" no momento máximo é uma atividade valiosa para o monitoramento da transparência da atmosfera da Terra.

Tabela 2 – Escala de Danjon 

Valor (L) / Value (L)Descrição em PortuguêsEnglish Description
0Eclipse muito escuro. Lua quase invisível na totalidade.Very dark eclipse. Moon almost invisible during totality.
1Eclipse escuro, cinza ou acastanhado. Detalhes difíceis de distinguir.Dark eclipse, gray or brownish in color. Details distinguishable only with difficulty.
2Eclipse vermelho-escuro ou cor de ferrugem. Centro da sombra muito escuro, borda da umbra relativamente brilhante.Deep red or rust-colored eclipse. Central shadow very dark, while the outer edge of the umbra is relatively bright.
3Eclipse vermelho-tijolo. Borda da umbra brilhante ou amarela.Brick-red eclipse. Umbral rim bright or yellow.
4Eclipse muito brilhante, vermelho-cobre ou alaranjado. Borda da umbra muito brilhante, por vezes com tonalidade azulada.Very bright copper-red or orange eclipse. Umbral rim very bright, sometimes with a bluish tinge.
Fonte/Source: Adaptado de REA (Rede de Astronomia Observacional) e definições padrão.

Metodologia e Importância Científica

A cronometragem dos contatos de crateras não é apenas um registro de horários, mas um método científico para mensurar a dilatação da sombra terrestre. Devido à atmosfera do nosso planeta, a umbra projetada na Lua é cerca de 2% maior do que a geometria simples prevê. 


Fig. 4 – Diagrama da Sombra Terrestre. Fonte: Ilustração gerada pelo Autor. gerado via IA.

Segundo VITAL (2003), o observador deve registrar o instante em que o gradiente máximo de escuridão da borda da umbra cruza o centro da cratera (ou formação). Estes dados auxiliam no refinamento dos cálculos de achatamento umbral e na análise de constituintes atmosféricos.

Tabela 3 – Previsão de Imersão e Emersão de Crateras (Tempos em TU)

RelevoCoord. SelenográficasØ (km)Imersão (TU)Emersão (TU)
Grimaldi5,2° S / 68,9° W235,009:53:5912:14:50
Riccioli3,3° S / 74,3° W139,009:52:2512:14:53
Billy13,8° S / 50,2° W45,510:00:5512:16:08
Crüger16,7° S / 66,9° W45,909:58:2612:11:32
Gassendi17,5° S / 39,9° W111,310:06:0212:18:06
Campanus29,1° S / 35,2° W48,910:16:0312:18:40
Schickard44,3° S / 55,0° W207,710:17:3412:06:41
Tycho43,4° S / 11,1° W85,010:31:1412:18:22
Bullialdus33,3° S / 20,6° W61,410:15:0412:23:29
Pitatus29,8° S / 13,5° W100,610:23:3012:23:06
Kepler8,1° N / 38,0° W29,409:59:3112:27:44
Aristarchus23,7° N / 47,4° W39,909:55:4812:30:19
Copernicus9,6° N / 20,0° W96,010:07:2412:35:43
Pytheas20,5° N / 20,6° W20,010:06:1412:39:12
Timocharis26,7° N / 13,1° W34,110:09:3012:44:28
Archimedes29,7° N / 3,9° W81,010:13:3412:49:14
Aristillus33,8° N / 1,2° E54,310:15:5712:52:19
Pico45,8° N / 8,8° W24,410:11:4612:50:51
Plato51,6° N / 9,38° W100,610:12:0312:52:01
Dionysius2,77° N / 17,2° E17,210:29:2612:51:05
Manilius38,3° N / 9,0° E38,310:22:1712:51:03
Menelaus16,2° N / 15,9° E27,110:25:3612:54:48
Plinius15,3° N / 23,6° E41,310:29:4012:58:10
Eudoxus44,2° N / 16,2° E70,110:21:3112:59:57
Aristoteles50,2° N / 17,3° E87,510:21:0613:00:34
Censorinus0,4° S / 32,7° E4,110:38:2812:56:42
Goclenius10,0° S / 45,0° E73,010:46:5512:56:53
Langrenus8,8° S / 61,0° W131,910:52:4613:02:36
Taruntius5,5° N / 46,5° E57,310:43:1413:04:38
Posidonius31,8° N / 29,9° E95,010:29:1313:03:57
Proclus16,1° N / 46,8° E26,910:40:4013:07:21
Picard14,5° N / 54,7° E22,310:43:5513:09:59
Endymion53,6° N / 56,4° E122,110:31:2613:10:22
Mare Crisium17,0° N / 59,1° E418,010:44:5413:11:20
Fonte: Dados extraídos do Almanaque Astronômico Brasileiro (CAMPOS, 2026, p. 45-46).

Conclusão

Para os observadores situados no Brasil, a coincidência dos horários do fenômeno com o amanhecer e o consequente ocaso lunar impõe restrições severas à visualização direta. A fase penumbral (P1) terá início às 05:44 (HLB), momento em que a Lua estará com altitude inferior a 10° na maior parte do território nacional.

Contudo, a impossibilidade de acompanhar a totalidade visualmente não diminui a relevância astronômica do evento. A análise das circunstâncias deste eclipse — desde a dilatação da sombra terrestre (cerca de 2%) evidenciada pela metodologia de cronometragem de crateras, até a evolução secular da série Saros 133 — reforça o caráter pedagógico e científico da astronomia amadora. O acompanhamento rigoroso das efemérides e a compreensão destas dinâmicas mantêm viva a prática da astronomia de posição, preparando-nos tecnicamente para os futuros alinhamentos da mecânica celeste.

Referências:

CAMPOS, Antônio Rosa (Org.). Almanaque Astronômico Brasileiro 2026. Belo Horizonte: Ed. CEAMIG, 2025. Disponível em: https://is.gd/Alma2026. Acesso em: 05 fev. 2026.

ESPENAK, Fred; MEEUS, Jean. Five Millennium Catalog of Lunar Eclipses: -1999 to +3000. NASA/GSFC, 2009. Disponível em: https://eclipse.gsfc.nasa.gov/LEcat5/LEcat5.html. Acesso em: fev. 2026.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. 914 p.

TIME AND DATE. Total Lunar Eclipse on March 3, 2026. Disponível em: https://www.timeanddate.com/eclipse/lunar/2026-march-3. Acesso em: 05 fev. 2026.

VITAL, Hélio de Carvalho. Eclipse Lunar Total de 08 de novembro de 2003: instruções para observação. Rede de Astronomia Observacional (REA), 2003. Disponível em: https://www.geocities.ws/lunissolar2003/Nov08.htm. Acesso em: 05 fev. 2026.

VITAL, Hélio de Carvalho. Projetos de observação: eclipse lunar total de 28 de outubro de 2004. Rede de Astronomia Observacional (REA), 2004. Disponível em: https://www.geocities.ws/lunissolar2003/Ec0410/PO_Eclipse_2004_Out28.htm. Acesso em: 05 fev. 2026.


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