Cratera Bessel – A marca precisa no coração do Mare Serenitatis

Antônio Rosa Campos 

Em plena planície basáltica do Mare Serenitatis, a cratera Bessel funciona como uma espécie de “ponto de mira” no coração desse mar lunar. Pequena, mas bem definida, ela é um alvo ideal para treinar o olho do observador, aplicar na prática a escolha de oculares e filtros e aprender a usar formações discretas como marcos de navegação no relevo da Lua.

Figura 1 – Localização da cratera Bessel no setor central do Mare Serenitatis, com base em dados do Gazetteer of Planetary Nomenclature (IAU/USGS) e na imagem “Lava Flows Exposed in Bessel Crater” da LROC/NASA (<https://lroc.im-ldi.com/images/323\>).

Localização e dados principais

Bessel situa-se aproximadamente na região central do Mare Serenitatis, em terreno de baixo relevo, recoberto por lavas basálticas.

Dados principais da cratera Bessel

Nome: Bessel

Código IAU/USGS: 720

Diâmetro: ≈ 15,6 km

Latitude selenográfica: ≈ +21,7°

Longitude selenográfica: ≈ 17,9° E

Região: Mare Serenitatis (hemisfério visível)

Epônimo: Friedrich Wilhelm Bessel (1784–1846), astrônomo alemão

Os parâmetros oficiais de nomeação constam no Gazetteer of Planetary Nomenclature (IAU/USGS).

Bessel no contexto do Mare Serenitatis

O Mare Serenitatis é facilmente reconhecido a olho nu como uma grande mancha escura no hemisfério visível da Lua. Ao telescópio, essa região revela um piso relativamente uniforme, com poucas crateras de porte médio preservadas sobre o basalto solidificado.

Nesse cenário, Bessel se destaca como uma cratera isolada e clara em meio ao fundo escuro do mar. Sua posição quase central em Serenitatis torna-a um excelente ponto de referência para:

- Fixar mentalmente a área do mare;

- Servir de “âncora” para localizar outras formações menores;

- Perceber como o basalto recobre estruturas mais antigas próximas às bordas do mar.

- Morfologia: uma cratera simples em terreno complexo

- Bessel é uma cratera classificada como: simples:

- Bordas bem delimitadas;

- Interior relativamente liso;

- Ausência de picos centrais evidentes ou terraços desenvolvidos.

Justamente por estar assentada sobre o piso escuro do Mare Serenitatis, ela evidencia bem:

- A diferença de albedo entre o material mais claro das bordas e o basalto do mar;

- As sombras internas que surgem quando o Sol está baixo no horizonte lunar;

- A ação do tempo geológico, que atenua raios brilhantes e integra a cratera ao fundo do mare.

Em noites de boa estabilidade atmosférica, aumentos moderados já permitem notar que suas bordas não são perfeitamente regulares, revelando pequenas irregularidades que enriquecem a observação.

Iluminação e o papel do terminador lunar

Os melhores momentos para observar Bessel coincidem com a passagem do terminador lunar — a linha que separa a parte iluminada da parte escura da Lua pela região do Mare Serenitatis.

Na Lua Crescente, o terminador avança sobre Serenitatis a partir do lado oeste do disco. Bessel “surge” da sombra e suas bordas ganham relevo à medida que o Sol se ergue sobre a região.

Na Lua Minguante, a iluminação vem do lado oposto, invertendo o sentido das sombras. Isso oferece uma segunda oportunidade de observação, agora com outro ângulo de incidência da luz, permitindo comparar detalhes sob geometrias diferentes.

Praticamente, Bessel mostra muito mais detalhes quando o Sol lunar está baixo sobre o Mare Serenitatis. Perto da Lua Cheia, o excesso de luz “lava” o relevo, reduz as sombras e faz a cratera se confundir com pequenas manchas claras sobre o piso escuro.

Oculares, aumentos e aplicação prática

A observação de Bessel é um bom laboratório para aplicar a progressão de aumento discutida em aulas sobre oculares:

Sugestão de sequência de oculares

1. Localização do Mare Serenitatis – baixo aumento

Ocular longa (25–32 mm), ~25–40×.

 - Objetivo: enquadrar Serenitatis como um todo, identificando a grande mancha escura e centralizando a região do mare no campo de visão.

2. Identificação de Bessel – aumento médio

Ocular de 12–15 mm, ~60–80×.

- Bessel aparece como um pequeno ponto claro e nítido em meio ao piso escuro do mare. Neste nível, o contraste entre bordas e interior já é bem perceptível.

3. Exploração de detalhes – aumento mais alto (respeitando o seeing)

Ocular de 8–10 mm, ~100–150× (ou mais, se a atmosfera permitir).

-  Agora vale observar a forma da borda, eventuais irregularidades internas e diferenças sutis de brilho na região imediata à cratera.

Essa abordagem evita “se perder” em altos aumentos logo no início, e aproveita melhor o campo real de cada ocular.

Filtros ND e conforto visual

A Lua é um alvo muito brilhante para o telescópio, principalmente quando ultrapassa a fase de Quarto Crescente ou se aproxima da Lua Cheia. Nessas condições, a observação do Mare Serenitatis e de Bessel pode se tornar desconfortável sem algum controle de brilho.

Uso de filtros na observação de Bessel

Filtro de Densidade Neutra (ND)

Reduz o brilho de forma uniforme, sem alterar significativamente a tonalidade.

- Um ND em torno de 0,9 é suficiente para tornar a imagem mais confortável em telescópios de média e grande abertura.

Útil quando:

 - A Lua está com mais de 50% iluminada;

 - A abertura do telescópio é ≥ 150 mm.

Filtro polarizador variável

- Permite ajustar a quantidade de luz transmitida girando os elementos polarizadores.

- Versátil: pode ser usado com a Lua em diferentes fases, com Vênus e outros alvos muito brilhantes.

- Ajuda a adaptar o nível de brilho ao tipo de ocular, ao aumento utilizado e à sensibilidade do observador.

Embora Bessel possa ser observada sem filtros em fases de menor brilho, o uso de ND ou polarizador variável melhora o conforto visual e favorece a percepção de diferenças de contraste no entorno da cratera.

Instrumentos recomendados

Binóculos (10×50)

Permitem identificar o Mare Serenitatis como um mar escuro bem definido, mas Bessel não se resolve como cratera individual.

Telescópios pequenos (60–90 mm)

Em aumentos médios (60–80×), Bessel se destaca claramente como um ponto luminoso bem delimitado sobre o fundo escuro.

Telescópios de 100 mm ou mais

Em noites de boa estabilidade, aumentos entre 100× e 150× permitem investigar nuances no interior da cratera e variações de brilho ao redor.

Bessel como ponto de navegação selenográfica

Uma vez localizada Bessel, o observador pode utilizá-la como marco de navegação para explorar gradualmente o Mare Serenitatis:

- Traçar mentalmente linhas em direção às bordas do mare, notando a transição para terrenos mais antigos e acidentados;

- Procurar outras crateras menores na vizinhança, treinando o olhar para detalhes de baixo contraste;

- Comparar Bessel com crateras de porte semelhante em outros mares, discutindo como contexto geológico e iluminação modificam o aspecto observado.

Esse tipo de exercício ajuda a construir uma verdadeira “cartografia pessoal” da Lua, consolidando a familiaridade com regiões específicas e a leitura do relevo.

Considerações finais

Embora discreta nas grandes imagens de alta resolução, a cratera Bessel revela grande valor didático ao telescópio. Ela reúne, em um único alvo:

- A observação de uma cratera simples em terreno de mare;

- O uso prático de diferentes oculares e aumentos;

- A aplicação de filtros de densidade neutra ou polarizadores para melhor conforto visual;

- O treinamento da navegação selenográfica a partir de um ponto de referência claro.

Incluir a “Cratera Bessel – A marca precisa no coração do Mare Serenitatis” no planejamento de observações é um passo importante para transformar cada sessão de observação lunar em um exercício de leitura consciente da superfície da Lua.

Boas observações e céus limpos. 🌙

Referências:

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

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CAMPOS, Antônio Rosa; FARIA, Aléxia Lage de. T17 – Aula 17. Belo Horizonte, MG: CEAMIG-GREC – Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais – Grupo de Reconhecimento e Estudos do Céu, dez. 2025. Material didático interno (apostila digital em PDF).
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