30 de junho de 1957 - A Estrela de Ibitira

Antônio Rosa Campos

O que acontece quando o firmamento resolve 'mandar fogo' bem na hora em que o trabalhador encerra a lida? Como fica o coração de quem está no lombo do cavalo e vê o dia de meio-dia renascer no meio do crepúsculo? Hoje, convidamos você a apiar de seu cavalo e ouvir a prosa de Zé Sementeiro sobre o entardecer de 30 de junho de 1957: o momento em que o rastro de poeira da terra se encontrou com o rastro de de luz mais interessante de Minas Gerais naquele tempo. 

A Estrela de Ibitira

— Zé Sementeiro —
Arrieiro de Tropa

Agora ocê imagina o tamanho do espanto! Era dia 30 de junho de 1957. Já tinha corrido uma década daquele dia em que o sol se escondeu na bruaca e me arrepiou o couro, e eu, o Zé Sementeiro, continuava ali, medindo légua de estradão entre Abaeté e Pompéu.

               Figura. 1 - Concepção artística do Tropeiro Zé Sementeiro no momento da queda do Meteroríto de Ibitira em 30/06/1957. Imagem  IAGemini3

Estava montado no Rouba Moça, meu cavalo cinza de estimação, que tinha uma marcha miúda de fazer gosto; parecia que a gente ia era flutuando por cima da poeira. O sol já tinha arredado pro poente, pintando o horizonte daquele alaranjado mais bonito que tem no crepúsculo.

A luz do dia estava ficando visagenta. No céu, as primeira Estrela do Indaiá já queriam piscar e o Rouba Moça começou a orelhar, pressentindo que vinha um trem esquisito por ali. Foi quando o alto do céu resolveu dar o espetáculo dele: num piscar d’oio, o cinza da tarde virou um 'dia de meio-dia'. Mas era um brilho diferente, azulada, de cegar a vista da gente, que fez o animal rabejar e empinar, cego de brio e de susto.

Lá no alto, onde o azul já ia minguando, apareceu uma bola de fogo mais brilhante que o próprio sol que tinha acabado de se esconder. O trem era feio de tão bonito! A Estrela de Ibitira veio riscando o céu num zigua-zaguear e numa velocidade que o olho não dava conta de seguir, deixando um rastro de fumaça e faísca pra trás.

O clarão era tanto que a gente via as sombra das árvore 'visageando' de um lado pro outro, como se o mundo estivesse tonto de tanta cachaça. De certo o berrante de algum ponteiro que vinha longe silenciou na hora, as galinha picou o pé pro poleiro e o gado se amontoou, mudo de medo.

O corpo intirím parece que tremia, e o estrondo que veio depois foi de doer o ouvido: parecia que mil trovão tinha explodido de uma vez só. Foi num instante de glória e temor, inté parece que numa direção só de luz que uniu o céu de Minas ao rastro de poeira que eu e o Rouba Moça tínhamos deixado na terra.

Notas para a Crônica do Meteorito de Ibitira

  • Data e Hora: 30/06/1957, aproximadamente às 17:30 (Hora Local). [cite: 12]
  • Visibilidade: O fenômeno ocorreu durante o crepúsculo vespertino, desafiando a luz do pôr do sol. O brilho foi relatado como superior ao do sol em alguns locais. [cite: 13, 14]
  • Impacto e Localização: O meteorito (um eucrito raro) caiu próximo ao distrito de Ibitira, no município de Martinho Campos, adjacente a Pompéu e Abaeté. [cite: 15]
  • Busca Científica: As direções de queda e o brilho foram fundamentais para as equipes de busca, que enviaram circulares para todas as prefeituras em um raio de 100 km para coletar as "coordenadas" de observação. [cite: 16]


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