Posidonius: O anel quebrado do Mare Serenitatis

Antônio Rosa Campos

Entre as muitas formas que a Lua nos mostra, há uma que sempre desperta curiosidade: uma imensa cratera circular, com o anel levemente partido e um interior repleto de fraturas. Essa é Posidonius, o “anel quebrado” do Mare Serenitatis — uma das formações mais belas e intrigantes do hemisfério norte lunar.

Em nossa série Roteiro Lunar: observando a nossa vizinha cósmica, vamos explorar essa estrutura monumental, entender a dinâmica de sua formação e descobrir a história do filósofo que lhe emprestou o nome.


Figura 1. Cratera Posidonius (31.8° N, 29.9° E) — Posidonius. Crédito: NASA/GSFC/Arizona State University (LROC QuickMap).

A perfeição circular e o anel quebrado

Quando observamos crateras como Posidonius, uma dúvida comum costuma surgir: por que a grande maioria das crateras lunares é perfeitamente redonda, mesmo sabendo que os meteoritos têm formatos irregulares? A resposta está na física do impacto. Quando um meteoroide atinge a superfície lunar a velocidades cósmicas (frequentemente dezenas de quilômetros por segundo), a tremenda energia cinética é liberada instantaneamente, agindo como uma poderosa explosão centralizada. Essa detonação escava o terreno de forma simétrica em todas as direções, criando uma cicatriz circular, independentemente do formato da rocha ou do ângulo de entrada.

Posidonius nasceu dessa mesma forma violenta e perfeitamente circular. No entanto, com o passar das eras geológicas, a lava incandescente que preencheu o vizinho Mare Serenitatis invadiu o interior da cratera, rompendo parte de sua parede sudoeste e fraturando seu piso interno. Hoje, ela se apresenta como esse magnífico "anel quebrado", medindo cerca de 95 km de diâmetro.

Dados para a sua sessão de observação

O mês de maio de 2026 será especial, pois abrigará duas Luas Cheias (dias 01 e 31). Para a nossa observação de Posidonius, focaremos na primeira oportunidade do mês:

  * Data ideal de observação:  01 de maio de 2026

  * Horário recomendado (HLB):  20h – 23h

  * Fase lunar: 🌕 Lua Cheia (Ocorre oficialmente em 01 de maio de 2026, às 14:26 HLB)

  * Coordenadas selenográficas: +31,82° N / +29,90° E

  * Diâmetro: ≈ 95,07 km

  * Instrumento sugerido: Telescópio refletor newtoniano 114 mm (f/8)

  * Aumentos recomendados: 80× – 130×

🔭 Dica de Equipamento: Observar a Lua Cheia exige conforto visual. O uso de um Filtro Neutro ND 0.6 é estritamente recomendado para reduzir o ofuscamento intenso do período. Com o brilho sob controle, seu olho conseguirá resolver as delicadas fraturas e os picos remanescentes no piso inundado de Posidonius.

O legado de Posidônio

A cratera foi nomeada em homenagem a Posidônio de Apameia (aprox. 135 a.C. – 51 a.C.), um dos mais importantes filósofos estoicos da Grécia Antiga, além de astrônomo, geógrafo e historiador. Posidônio era um polímata que via o universo como um organismo vivo e interconectado. Na astronomia, ele calculou o tamanho do Sol e da Lua, e foi pioneiro ao explicar a influência da Lua sobre as marés oceânicas na Terra, demonstrando uma intuição científica formidável para a sua época.

Conclusão

Ao observar Posidonius, percebemos que até o que parece quebrado pode guardar uma forma perfeita e uma história profunda. Entre a luz e o mar de lava petrificada, ela nos lembra que o Universo é feito de equilíbrio — e que cada grande impacto pode gerar uma nova e complexa beleza.

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Boas observações e céus limpos! ✨

Referências:

HOCKEY, T. (Ed.). The Biographical Encyclopedia of Astronomers. New York: Springer-Verlag, 2007.

MOURÃO, R. R. de F. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

USGS Astrogeology Science Center / IAU Gazetteer of Planetary Nomenclature. Posidonius (Feature ID 4808). Disponível em: <https://planetarynames.wr.usgs.gov/Feature/4808](https://planetarynames.wr.usgs.gov/Feature/4808>. Acesso em: 17 mar. 2026. 

ASTRONOMY.COM. Why are craters perfectly round even though meteorites are irregularly shaped?* Disponível em: <https://www.astronomy.com/science/why-are-craters-perfectly-round-even-though-meteorites-are-irregularly-shaped/>. Acesso em: 17 mar. 2026.


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