NGC 2070 - Nebulosa da Tarântula
Resumo
- NGC 2070, localizada a 160 mil anos-luz na Grande Nuvem de Magalhães, é a maior região de formação estelar do Grupo Local de galáxias
- Com mais de 1000 anos-luz de diâmetro, a nebulosa produz estrelas massivas em ritmo acelerado através de intensa radiação ultravioleta
- A magnitude aparente 4 permite observação a olho nu do hemisfério sul.
- Observações do James Webb revelaram milhares de estrelas jovens ocultas, fornecendo dados sobre formação estelar.
- Melhor observada em janeiro no hemisfério sul, abriga o aglomerado R136 e situa-se próxima à supernova SN 1987A.
- A ficha de catalogação de NGC 2070 – Nebulosa da
Tarântula pode ser baixada gratuitamente aqui.
A Constelação de Dorado
A Nebulosa da Tarântula (NGC 2070) se localiza na
constelação Dorado (Dourado), uma constelação austral situada próxima ao polo
sul celeste (Mourão, 1987). O nome latino Dorado refere-se ao peixe dourado (mais
especificamente, dourado-do-mar: Coryphaena hippurus), uma espécie marinha tropical notável
por suas cores brilhantes e cintilantes (Constellation Guide, [s. d.]). Diferente de
muitas constelações do hemisfério norte que possuem raízes na mitologia
greco-romana, Dorado é uma criação moderna, concebida na era das grandes navegações europeias para preencher as
lacunas nos mapas celestes do hemisfério sul, região até então desconhecida
pelos astrônomos clássicos da antiguidade. Sua
posição privilegiada no céu austral
a torna o lar de uma
das joias mais preciosas da astronomia extragaláctica: a Grande Nuvem de
Magalhães, uma galáxia satélite da Via Láctea que hospeda o objeto principal
deste estudo (Mourão, 1987).
A constelação de Dorado foi introduzida no final do
século XVI, resultante das observações astronômicas realizadas pelos
navegadores holandeses Pieter Dirkszoon Keyser e Frederick de Houtman durante
suas expedições às Índias Orientais entre 1595 e 1597. Estes exploradores
mapearam sistematicamente as estrelas
do céu do sul que não eram visíveis da Europa, criando doze novas constelações
que foram posteriormente adotadas pelos cartógrafos celestes (Ian Ridpath, [s. d.]).
A primeira representação
cartográfica oficial de Dorado apareceu no globo celeste do astrônomo Petrus
Plancius em 1598, e sua consagração definitiva ocorreu com a inclusão no
influente atlas estelar "Uranometria" de Johann Bayer em 1603 (Ian Ridpath, [s. d.]).
Dorado é uma constelação circumpolar para grande parte
do hemisfério sul, o que significa que permanece visível durante toda a noite
em latitudes meridionais, nunca se pondo abaixo do horizonte. Sua observação é
favorecida nas latitudes entre
+20° e -90°, sendo praticamente invisível para observadores situados em latitudes médias e
altas do hemisfério norte. A constelação ocupa uma área de 179 graus quadrados
no céu e está cercada por um grupo notável de outras constelações austrais
modernas. Seus limites oficiais fazem divisa com Caelum
(o cinzel), Horologium (o relógio), Hydrus (a Hidra Macho), Mensa (a mesa),
Pictor (o pintor, mas na verdade representa o cavalete do pintor), Reticulum (o
Retículo) e Volans (o Peixe Voador), formando um complexo de figuras
celestes que dominam o céu profundo do sul. (Constellation Guide, [s. d.]).
A nomenclatura oficial adotada pela União
Astronômica Internacional (IAU) designa a constelação como "Dorado", com a abreviatura
oficial de três letras "Dor".
A forma genitiva utilizada para nomear
suas estrelas é "Doradus".
Embora não possua estrelas
de primeira
magnitude, Dorado contém astros de interesse
científico significativo (IAU, 2025). A estrela mais brilhante
é Alpha Doradus, uma estrela binária
(mv = 3.26 a 3.30).
Outras estrelas notáveis incluem Beta
Doradus,
uma variável Cefeida
(mv = 4.05 a 3.45), e Gamma Doradus,
que dá nome
a
uma classe
inteira de
estrelas variáveis
chamadas de variáveis Gamma Doradus (Constellation
Guide, [s. d.]). Além disso,
a constelação abriga ζ Doradus (Zeta Doradus), δ Doradus
(Delta Doradus) e HD 40409.
A Nebulosa da Tarântula (NGC
2070)
Esta região gigante
é, sem dúvida, o objeto de céu profundo
mais impressionante da Grande Nuvem de Magalhães, possuindo dimensões colossais. A Nebulosa da
Tarântula, também conhecida como 30 Doradus,
tem mais de 1000
anos-luz de diâmetro e representa a maior e mais violenta região de formação estelar
conhecida em todo o Grupo Local de galáxias (Nemiroff (MTU); Bonnell (UMCP), 2024).
O nome popular
"Tarântula" deriva da aparência característica da nebulosa quando
observada telescopicamente e em fotografias de longa exposição (NASA, 2025) Seus intrincados filamentos gasosos de hidrogênio ionizado se estendem
a partir de um núcleo central brilhante e denso, assemelhando-se às pernas
longas e peludas de uma aranha tarântula
gigantesca espalhada pelo
firmamento. Esta analogia aracnídea captura perfeitamente a estrutura
complexa e a natureza
predatória visual da nebulosa, que
parece estar "capturando" os aglomerados
estelares em sua “teia” de gás e poeira
interestelar (NASA et al., 2017).
A Nebulosa
da Tarântula é uma região composta principalmente
por hidrogênio ionizado que brilha intensamente devido à
radiação ultravioleta emitida
pelas estrelas massivas
e quentes em seu interior
(Nemiroff
(MTU); Bonnell (UMCP), 2011). A coloração avermelhada predominante
nas imagens é resultado da emissão da linha espectral H-alfa do hidrogênio, enquanto as tonalidades azuladas indicam
a presença de oxigênio duplamente ionizado e a reflexão da luz
das estrelas jovens. A estrutura da nebulosa
é extremamente
complexa, formada por cavidades escavadas por luz ultravioleta
(NASA, 2025).
A natureza nebular de NGC 2070 foi reconhecida em meados do século XVIII,
sendo registrada pela primeira vez pelo astrônomo Nicolas-Louis de Lacaille
em 1751 (NASA, 2025).
A Nebulosa da
Tarântula apresenta dimensões verdadeiramente assombrosas. Com um diâmetro real
superior a mil anos-luz (Nemiroff (MTU); Bonnell (UMCP), 2024), sua distância
é estimada em aproximadamente 170.000 anos-luz
da Terra (NASA, 2025). Apesar dessa
enorme distância, a Nebulosa da Tarântula
possui uma magnitude de 4, tornando-a possível de ser vista a olho nu e um alvo
excelente para binóculos (NASA, 2025). Caso ela estivesse
localizada à mesma distância da Nebulosa de Órion (cerca de 1.500 anos-luz),
ela ocuparia metade do céu (Nemiroff (MTU); Bonnell (UMCP), 2024)
Dentro da nebulosa,
a emissão energética poderosa, os fluxos de partículas estelares e os choques
de supernovas originadas do agrupamento central de estrelas jovens e massivas
conhecido como R136 alimentam a luminosidade da nebulosa e esculpem suas
estruturas filamentares semelhantes a teias de aranha. Ao redor da Tarântula,
existem outras regiões de formação estelar com aglomerados estelares jovens,
filamentos e nuvens, além do local da supernova mais próxima dos tempos
modernos, conhecido como SN 1987A (Nemiroff (MTU); Bonnell (UMCP), 2024).
Nas últimas
décadas, a Nebulosa da Tarântula tem sido alvo constante dos observatórios mais
avançados da humanidade. O Telescópio Espacial Hubble realizou mapeamentos
extensivos da região, revelando detalhes sem precedentes dos filamentos de gás
e da população estelar. Em 2011, o Hubble produziu um dos maiores mosaicos já
montados de imagens da nebulosa, permitindo aos cientistas estudar a formação
estelar em múltiplas escalas (NASA, 2025). Mais recentemente, o
Telescópio Espacial James Webb (JWST) voltou seus olhos infravermelhos para a
Tarântula, penetrando através das nuvens de poeira para revelar milhares de
estrelas jovens que antes permaneciam ocultas,
oferecendo novas pistas sobre a composição química e a evolução das regiões de formação
estelar, similares aos do universo primitivo (Cranfill, 2022).
Para localizar
a nebulosa (Figura 4), identifique Canopus (α Carinae), bem alta no céu do sul
nas noites de verão austral. Prolongue mentalmente uma linha a partir da
estrela Sirius até Canopus. Estendendo essa linha mais para o sul, você
encontra a Grande Nuvem de Magalhães, como uma mancha difusa a olho nu em céus
escuros. Dentro da Grande Nuvem de Magalhães, use um binóculo ou telescópio de
campo amplo e procure, na sua parte oriental, uma área mais brilhante e
granular: essa é a região da Nebulosa da Tarântula (Constellation Guide, 2024).
Figura 4 – Localização da Nebulosa da Tarântula, conforme visualizada no
software Stellarium. Fonte: (Stellarium Developers,
2025).A Nebulosa da
Tarântula pode ser observada em pequenos telescópios. O aglomerado R136 é
visível em telescópios de 100mm, bem como alguns dos filamentos gasosos da
nebulosa. Telescópios de médio e grande portes revelam a estrutura semelhante a
uma aranha que dá nome à nebulosa (NASA, 2025). A nebulosa é melhor
observada a partir do hemisfério sul, pois ela nunca se eleva muito acima do
horizonte para quem está no hemisfério norte. Para observadores do hemisfério
sul, pode ser observada em grande parte do ano, com melhor visibilidade nas
noites mais longas do verão austral. O período mais favorável para observar a
Nebulosa da Tarântula, a Grande Nuvem de Magalhães e outros objetos de céu
profundo na constelação de Dorado vai aproximadamente de novembro a fevereiro,
com destaque para janeiro, quando a região atinge maior altura acima do
horizonte no início da noite (Constellation Guide, 2024).
Figura 5 – Nebulosa da Tarântula. Fonte: (ESO/IDA/Danish
1.5 m/R. Gendler, C. C. Thöne, C. Féron, and J.-E. Ovaldsen, 2009)O texto foi útil para você? Agradecemos a todos aqueles que puderem enviar seus comentários, críticas e sugestões para a coluna e o material por ela disponibilizado, por meio do e-mail alagef@gmail.com.
Referências
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2024. Disponível em:
https://www.constellation-guide.com/tarantula-nebula-30-doradus/. Acesso em: 31 jan. 2026.
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https://science.nasa.gov/missions/webb/a-cosmic-tarantula-caught-by-nasas-webb/.
Acesso em: 31 jan. 2026.
ESO/IDA/DANISH 1.5 M/R.
GENDLER, C. C. THÖNE, C. FÉRON, AND J.-E. OVALDSEN. The Tarantula
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STELLARIUM DEVELOPERS. Constelação Dorado: conformação, constelações vizinhas, principais estrelas e localização. versão 0.25.4. Boston: Stellarium.org, 2025. Stellarium Astronomy Software. Disponível em: https://stellarium.org/pt_BR/.
