Na próxima segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026, a astronomia observacional na América do Sul presenciará um fenômeno peculiar: a ocultação do planeta Marte pela Lua. Diferente dos eventos noturnos, onde o contraste do céu escuro facilita a localização e o registro, este evento ocorrerá em plena luz do dia confome ilustra a figura 1.
Figura 1 - Simulação da ocultação diurna de Marte pela Lua. Imagem gerada por Meta AI (2025).
A combinação de um céu azul brilhante e a geometria celeste transforma esta ocultação em um evento destinado estritamente à ciência e à técnica avançada. Embora o fenômeno esteja acontecendo sobre nossas cabeças, ele traz consigo barreiras técnicas e riscos físicos que exigem uma abordagem cautelosa e profissional.
O Desafio Diurno
Para os astrofotógrafos experientes, o principal obstáculo é vencer o contraste atmosférico. Com magnitude visual estimada em +1.2, Marte estaria brilhante em um céu noturno, mas durante o dia ele compete diretamente com a dispersão da luz solar na atmosfera terrestre (o brilho azul do céu).
A técnica recomendada para fazer o Planeta Vermelho "saltar" do fundo azul é o uso de filtros de alta densidade:
- Filtro Vermelho W23A; ou
- Idealmente, filtros IR-Pass (infravermelho).
Como o céu azul espalha muito menos luz infravermelha do que luz visível, esses filtros escurecem artificialmente o fundo do céu, aumentando drasticamente o contraste e permitindo o registro do disco marciano momentos antes de desaparecer atrás do limbo lunar. Sem o uso desses filtros e de câmeras sensíveis, a observação visual direta é praticamente impossível.
⚠️ Por que a Observação é Perigosa?
Para observadores menos preparados ou iniciantes, este evento carrega um risco crítico de segurança. O fator determinante é a elongação solar de apenas 9 graus.
Para visualizar o perigo, basta estender o braço em direção ao céu com o punho fechado: a distância angular entre o Sol e a Lua será menor do que a largura da sua mão. Isso significa que, ao apontar qualquer instrumento óptico (binóculo ou telescópio) para a região da Lua, o observador estará perigosamente próximo de "varrer" o disco solar.
Os riscos incluem:
- Cegueira Instantânea: O contato acidental da óptica com o Sol, mesmo que por uma fração de segundo durante a busca manual, focará a luz solar na retina, causando queimaduras irreversíveis e cegueira permanente.
- Danos ao Equipamento: A energia térmica concentrada pelo telescópio pode derreter componentes internos, sensores de câmeras e revestimentos de oculares em instantes.
- Busca Manual Proibida: Tentar encontrar a Lua "varrendo" o céu aleatoriamente é a receita para o desastre.
A única metodologia segura envolve o uso de montagens computadorizadas (GoTo) perfeitamente alinhadas, com o telescópio posicionado na sombra de uma barreira física (como um prédio) que bloqueie a visão direta do Sol.
Visibilidade e Abrangência Geográfica
Paradoxalmente, embora seja um evento de observação difícil e perigosa, sua abrangência geográfica é vasta. Uma análise detalhada das predições astronômicas indica que a faixa de ocultação cobrirá uma enorme extensão do Cone Sul, com mais de 320 localidades mapeadas.
No Brasil, o evento abrange:
- A totalidade da Região Sul (RS, SC, PR);
- Partes significativas do Centro-Oeste (MS, GO, MT);
- Partes do Sudeste (SP).
A sombra da Lua cruza fronteiras, passando também por Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e estendendo-se até a remota Estação Antártica Comandante Ferraz.
Em suma, a ocultação de 16 de fevereiro não é um convite à observação casual, mas um teste de precisão e responsabilidade. Aos que possuem a técnica e os meios seguros, desejamos céus limpos. Aos demais, a recomendação mais sábia é acompanhar os resultados divulgados posteriormente, preservando a visão para as inúmeras noites estreladas que ainda virão.
Boas Observações e céus limpos!
Referências:
- CEAMIG (Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais). Almanaque Astronômico Brasileiro 2026. Belo Horizonte: CEAMIG, dez. 2025. Disponível em: https://is.gd/Alma2026. Acesso em: 02 Dez. 2025.
- Mourão, R.R.F. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1987, 914P.
- Herald, Dave. Occult4 v 4.2024.7.15 (24 March. 2014). Update v4.2.0. Disponível em: http://www.lunar-occultations.com/occult4/occultupdate.zip. Acesso em 16 Ago. 2024.
