Barnard 33 - Nebulosa Cabeça de Cavalo
Resumo
· A
Nebulosa Cabeça de Cavalo (Barnard 33) é uma das mais icônicas nebulosas
escuras do céu, localizada na constelação de Órion.
· Está
localizada a aproximadamente 1.375 anos-luz da Terra, 0,5° ao sul da estrela
Alnitak (Zeta Orionis) no Cinturão de Órion.
· Faz
parte do Complexo de Nuvens Moleculares de Orion B, região ativa de formação
estelar.
· Considerada
um dos objetos mais difíceis de observar visualmente, requer telescópios de
250mm ou maiores e céus excepcionalmente escuros.
· A ficha de catalogação de Barnard 33 – Nebulosa Cabeça de Cavalo pode ser baixada gratuitamente AQUI.
Imagem criada por IA (plataforma NOTEBOOKLM, em 01/01/2026) Ilustração exclusiva da coluna LARGUE O CEL E OLHE PARA O CÉU #41
A Constelação de Orion
A
Nebulosa Cabeça de Cavalo se localiza na constelação Orion (Órion), uma das
formações estelares mais brilhantes e reconhecíveis do céu noturno. O nome
latino Orion deriva diretamente do grego antigo Ὠρίων (Ōríōn), denominação que
remonta aos primeiros escritores helênicos como Homero e Hesíodo, sendo Orion
uma das poucas constelações que continuam facilmente identificáveis mesmo na
época atual (Ridpath,
[s. d.]). Povos indígenas brasileiros também
reconheceram esta constelação: segundo Barbosa Rodrigues, os índios do Amazonas
denominavam Orion de Ararapari, nome composto de *arara* (arara) e
*pari* (cerca), em referência às cercas dos currais de peixes que possuem suas
varas dispostas em triângulo. (Mourão,
1987).
A
mitologia grega apresenta diversas narrativas sobre Orion, todas convergindo
para sua caracterização como caçador excepcional de estatura gigantesca.
Segundo Hesíodo, Orion era filho de Euríale (filha do rei Minos de Creta) e do
deus Poseidon, que lhe concedeu o dom sobrenatural de caminhar sobre as águas
tal como sobre a terra. A narrativa mais
conhecida relata que Orion, embriagado, violou Mérope, filha do rei Enopião da
ilha de Quios, sendo punido com cegueira e exílio; em Lemnos, Hefesto
compadeceu-se dele e cedou-lhe seu escravo Cedalião como guia, que Orion
carregava sobre os ombros para indicar-lhe o caminho até o oriente, onde Hélio
(o Sol) restaurou-lhe a visão. Posteriormente, em Creta, Orion dedicou-se à
caçada com Ártemis e Leto, mas proferiu em tom jactancioso que mataria qualquer
animal que vivesse sobre a Terra; irritada, a Terra fez aparecer um escorpião
gigantesco que o picou com seu ferrão e o matou, após o que Zeus elevou ambos
ao firmamento como memória do sucedido. Uma
versão alternativa sugere que foi Ártemis quem enviou o escorpião, seja por
amor não correspondido ou por ter sido alvo das investidas de Orion (Eratóstenes, 1999). Esta
rivalidade celestial persiste: quando a constelação Scorpius nasce no
horizonte, Orion põe-se, fugindo eternamente de seu algoz.
Figura 1 - Constelação Orion conforme visualizada no software Stellarium. Note a imagem do caçador-gigante, portando uma clava e uma pele de leão. Fonte: (Stellarium Developers, 2022).
Orion
é visível de praticamente todas as latitudes terrestres, podendo ser observada
entre +85° e -75° de latitude, sendo uma das quinze constelações equatoriais. A constelação ocupa área de 594 graus quadrados,
classificando-se como a 26ª maior constelação. Seus vizinhos celestes são
Eridanus (o Rio) ao oeste, Taurus (o Touro) ao noroeste, Gemini (os Gêmeos) ao
norte, Monoceros (o Unicórnio) ao leste e Lepus (a Lebre) ao sul, representando
este último a presa que Orion persegue auxiliado por seus dois cães de caça, as
constelações Canis Major (Cão Maior) e Canis Minor (Cão Menor) (Constellation
Guide, 2021).
Figura
2 - Constelações de Gemini, Taurus, Eridanus, Lepus e Monoceros, conforme
visualizadas no software Stellarium. A linha branca delimita a área de cada
constelação. Fonte: (Stellarium Developers, 2022)
A
nomenclatura oficial estabelecida pela União Astronômica Internacional (IAU)
define a designação completa como Orion, com abreviatura de três letras Ori e
forma genitiva Orionis, utilizada nos nomes estelares (IAU, 2025). As estrelas principais de Orion incluem
Betelgeuse (Alpha Orionis), supergigante vermelha de mv=0,45; Rigel
(Beta Orionis), supergigante de mv=0,18; Bellatrix (Gamma Orionis) e
o famoso asterismo do Cinturão de Orion ou Três Marias, formado por Alnitak
(Zeta Orionis, estrela gigante, mv=1,74), Alnilam (Epsilon Orionis, mv=1.69)
e Mintaka (Delta Orionis, mv=2.25) (International
Astronomical Union, 2021; Mourão, 1987). Outras estrelas notáveis incluem Saiph
(Kappa Orionis; mv=2.07), Hatysa (Iota Orionis; mv=2.80),
Meissa (Lambda Orionis; mv=3.39), e Tabit (p3 Orionis; mv=3.19) (International
Astronomical Union, 2021; Mourão, 1987).
Figura
3 - Constelação Orion conforme visualizada no software Stellarium e as suas
principais estrelas. Fonte: (Stellarium Developers, 2022).
A Nebulosa Cabeça de Cavalo (Barnard 33)
É nesta constelação que se
localiza uma das mais icônicas estruturas de nuvens escuras do céu: a Nebulosa
Cabeça de Cavalo, oficialmente catalogada como Barnard 33 (B33) no célebre Barnard
Catalogue of Dark Markings in the Sky de 1919, e identificada como parte do
sistema nebular IC 434, a extensa nebulosa de emissão que fornece o brilho de
fundo contra o qual a silhueta equina se destaca (Constellation
Guide, 2024). O
dicionário enciclopédico de Mourão a descreve sucintamente como "nebulosa
difusa de matéria escura, na constelação de Órion. Situada à distância de 400
parsec, com número de catálogo I 434" (Mourão, 1987).
A denominação Horsehead Nebula (Nebulosa Cabeça de Cavalo) tem origem na semelhança visual entre a projeção escura da nuvem molecular e a cabeça e pescoço de um cavalo marinho ou equino, com o "focinho" apontando para sudeste (Burnham, 1978); não se sabe ao certo quem primeiro aplicou esta nomenclatura descritiva, mas ela popularizou-se rapidamente entre astrônomos e astrofotógrafos. O astrônomo norte-americano Edward Emerson Barnard fotografou a nebulosa a partir do Observatório Lick na Califórnia em 1894, sendo um dos primeiros astrônomos a reconhecer a natureza desta estrutura como uma grande massa obscurecedora de algum tipo, vista contra uma região brilhante de nebulosidade (Burnham, 1978).
Figura 4 – Localização da Nebulosa de Cabeça do Cavalo, conforme visualizada no software Stellarium. Fonte: (Stellarium Developers, 2022)
Figura 5 – Nebulosa de Cabeça
de Cavalo. Fonte: (T.A.Rector (NOIRLab/NSF/AURA) and Hubble Heritage Team
(STScI/AURA/NASA), 2015)
A Nebulosa Cabeça de Cavalo pertence à classe das nebulosas escuras ou nebulosas de absorção, estruturas compostas primordialmente por nuvens frias de hidrogênio molecular (H₂), poeira interestelar e gás não luminoso, possivelmente na forma de cristais congelados segundo alguns teóricos, talvez envolvendo inclusive partículas sólidas maiores (Burnham, 1978). Esta composição densa bloqueia efetivamente a luz das estrelas situadas dentro e atrás da nebulosa, tornando-a visível apenas quando retroiluminada por nebulosidade brilhante. A região aparece escura principalmente porque consiste em poeira espessa que não emite luz e irradia muito pouco calor; o hidrogênio molecular frio que a compõe não emite luz (Constellation Guide, 2024). Imagens em infravermelho próximo obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble (HST) revelaram a estrutura interna da nebulosa e estrelas embutidas em seu interior, bem como aquelas localizadas no fundo, uma vez que nestes comprimentos de onda o material da nebulosa absorve muito menos luz (Constellation Guide, 2024).
Dados técnicos quantitativos
estabelecem o tamanho aparente da Nebulosa Cabeça de Cavalo em aproximadamente
8 × 6 minutos de arco, correspondendo a um raio de cerca de 3,5 anos-luz, em
uma distância de aproximadamente 1.375 ± 54 anos-luz (422 ± 17 parsecs) do
Sistema Solar (Constellation
Guide, 2024). A
nebulosa está localizada aproximadamente 0,5° ao sul da estrela brilhante Zeta
Orionis (Alnitak), a estrela mais oriental das três que formam o Cinturão de
Orion (Burnham,
1978) (Figura
04).
A Nebulosa Cabeça de Cavalo
apresenta características físicas notáveis que a distinguem como objeto de
estudo astrofísico. O brilho rosado do gás hidrogênio ionizado atrás da
nebulosa é causado parcialmente pela estrela próxima Sigma Orionis, sistema
estelar múltiplo composto (Constellation
Guide, 2024)
(Figura 05).
Em abril de 2013, o Telescópio
Espacial Hubble fotografou a nebulosa com detalhes surpreendentes, revelando
duas estrelas localizadas na parte superior da nebulosa, sendo que uma delas
foi relatada como emitindo radiação que está despojando o berçário de estrelas
que se encontra nessa área (NASA,
NOAO, ESA and The Hubble Heritage Team (STScI/AURA); Acknowledgment: K. Noll
(Hubble Heritage PI/STScI), C. Luginbuhl (USNO), F. Hamilton (Hubble
Heritage/STScI), 2001); nuvens de gás ao redor da Cabeça de
Cavalo já se dissiparam, mas a ponta do pilar saliente contém densidade
ligeiramente mais alta de hidrogênio e hélio, entrelaçada com poeira,
projetando uma sombra que protege o material por detrás dela de ser removida
pela intensa radiação estelar que causa a evaporação da nuvem de hidrogênio,
formando assim a estrutura de pilar. O telescópio espacial Euclid da Agência
Espacial Europeia (ESA) capturou imagem panorâmica e detalhada da Cabeça de
Cavalo em 2023, obtendo essa visão ampla e nítida em apenas uma observação de
cerca de uma hora (Constellation
Guide, 2024).
A Nebulosa Cabeça de Cavalo é
parte do Complexo de Nuvens Moleculares de Orion (Orion Molecular Cloud
Complex), região de formação estelar. O complexo de Orion contém duas
nuvens moleculares gigantes, Orion A e Orion B, sendo a Cabeça de Cavalo parte
da nuvem molecular Orion B, a qual contém: a nebulosa de emissão IC 434, a
Nebulosa da Chama (NGC 2024), a nebulosa de reflexão Messier 78 e a Nebulosa de
McNeil (Constellation
Guide, 2024).
A Cabeça de Cavalo é um dos
objetos mais difíceis do céu. Com um céu realmente excelente, um telescópio de
campo amplo de 200mm ou 250mm, usado com uma ocular grande angular, às vezes
mostrará tênue sugestão do contorno (Burnham,
1978). Recomenda-se
telescópios de 250mm ou superiores, com filtros H-Beta. Porém, se forem feitas
fotografias de longa exposição, ela será melhor visualizada, pois se poderão captar
detalhes que nossos olhos não podem ver (Constellation
Guide, 2024).
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Referências
BURNHAM, Robert. Burnham’s
celestial handbook: an observer’s guide to the universe beyond the solar system. New
York: Dover publ, 1978. v. 2
CONSTELLATION GUIDE. Horsehead Nebula (B33): Dark
Nebula in Orion. [S.
l.], 2024. Disponível em:
https://www.constellation-guide.com/horsehead-nebula-barnard-33/. Acesso
em: 31 dez. 2025.
CONSTELLATION GUIDE. Orion Constellation (the
Hunter): Stars, Facts, Myth, Location. [S. l.], 2021. Disponível em:
https://www.constellation-guide.com/constellation-list/orion-constellation/.
Acesso em: 18 dez. 2022.
ERATÓSTENES.
Mitología del Firmamento (Catasterimos). tradução: Guerra, Antonio
Guzmán. Madrid: Alianza Editorial, 1999. (Clásicos de Grecia y Roma, no
3408053).
Acesso em: 30 maio 2020.
IAU. The
Constellations. [S. l.], 2025. Disponível em:
https://www.iau.org/Iau/Iau/Science/What-we-do/The-Constellations.aspx. Acesso
em: 9 nov. 2025.
INTERNATIONAL ASTRONOMICAL UNION. Naming Stars.
[S. l.], 2021.
Disponível em: https://www.iau.org/public/themes/naming_stars/. Acesso em: 16
out. 2022.
MOURÃO,
Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e
Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Disponível em: Acesso
em: 4 maio 2025.
NASA, NOAO, ESA AND THE HUBBLE HERITAGE TEAM
(STSCI/AURA); ACKNOWLEDGMENT: K. NOLL (HUBBLE HERITAGE PI/STSCI), C. LUGINBUHL
(USNO), F. HAMILTON (HUBBLE HERITAGE/STSCI). The Horsehead Nebula. [S. l.], 2001. Disponível em:
https://science.nasa.gov/asset/hubble/the-horsehead-nebula/. Acesso em: 31 dez.
2025.
RIDPATH,
Ian. Orion, the Hunter. [S. l.], [s. d.]. Disponível em:
http://www.ianridpath.com/startales/orion.html. Acesso em: 31 dez. 2025.
STELLARIUM
DEVELOPERS. Constelação Orion: conformação, constelações vizinhas,
principais estrelas e localização. versão 0.22.2. Boston:
Stellarium.org, 2022. Stellarium Astronomy Software. Disponível em:
https://stellarium.org/pt_BR/.
T.A.RECTOR (NOIRLAB/NSF/AURA) AND HUBBLE HERITAGE TEAM (STSCI/AURA/NASA). The Horsehead Nebula/IC434. [S. l.], 2015. Disponível em: https://www.noirlab.edu/public/images/noao0126a/. Acesso em: 31 dez. 2025.


